Ajuste fiscal, reforma tributária, segurança jurídica e investimentos foram foco
Os desafios econômicos e institucionais do Brasil após as eleições de 2026 e os impactos sobre a competitividade industrial estiveram em debate durante a 9ª edição do Imersão Indústria, realizada nesta sexta-feira (30/10), no BH Shopping, em Belo Horizonte. Na palestra “Brasil pós-eleição: o que muda (de fato) para a indústria?”, a economista Elena Landau e o cientista político Fernando Schüler discutiram os principais obstáculos para o desenvolvimento do país e as medidas necessárias para estimular investimentos e fortalecer o setor produtivo.
Entre os principais assuntos abordados estiveram o equilíbrio das contas públicas, a reforma tributária, a segurança jurídica, a relação entre os Poderes e a necessidade de reformas estruturais.
Um dos pontos de atenção levantados por Elena Landau foi o aumento da carga tributária. A economista comentou a definição, pelo Tribunal de Contas da União (TCU), da alíquota de referência de 11,3% para a Contribuição sobre Bens e Serviços (CBS), acima das projeções anteriores, que giravam em torno de 9,2%. O percentual ainda será definido pelo Senado Federal.
“Fica muito pior do que a gente imaginava. Você já está numa semana muito difícil pós-eleitoral, as pessoas estão vivendo um momento de incerteza e você vê uma surpresa em algo tão fundamental como uma alíquota de imposto”, afirmou Landau.
A especialista também destacou que outros fatores pressionam os custos de produção e afetam a competitividade das empresas, como os preços da energia e as discussões sobre a jornada de trabalho 6×1. Para ela, a insegurança jurídica e a falta de coordenação entre os Poderes também dificultam a implementação de mudanças necessárias para a economia.
“Acho mais importante o Brasil superar a crise institucional do que qualquer coisa. Porque a receita da boa economia a gente tem. Temos técnicos, bons tributaristas e bons economistas, mas você não consegue avançar porque o Congresso faz uma coisa, o Executivo tem esse combate, o STF intervém muito mais do que deveria e o TCU está hipertrofiado”, avaliou.
Na avaliação de Landau, o país precisa estabelecer prioridades, fortalecer o planejamento governamental e garantir maior previsibilidade nas decisões públicas. Essas condições são importantes para ampliar a confiança dos empresários e estimular investimentos de longo prazo.
Ajuste fiscal e reformas estruturais
Fernando Schüler chamou a atenção para o crescimento da dívida pública e a necessidade de medidas estruturais para reorganizar as contas do país. Segundo ele, a dívida aumentou mais de 11 pontos percentuais do Produto Interno Bruto (PIB) nos últimos quatro anos, cenário que exige mudanças para além de ajustes pontuais no orçamento.
“O país acumulou um aumento da dívida pública em quatro anos acima de 11 pontos do PIB. Isso não é uma trivialidade. É preciso retomar as reformas estruturais”, afirmou.
Entre as medidas apontadas pelo cientista político estão a revisão das despesas obrigatórias, mudanças na Previdência, a discussão sobre a indexação dos gastos públicos e a avaliação dos custos do Legislativo, do Judiciário e das emendas parlamentares. Schüler também defendeu a revisão de incentivos fiscais e uma gestão mais eficiente dos recursos públicos.
Para o especialista, o início de um novo mandato presidencial representa uma oportunidade para avançar em propostas que exigem articulação política e decisões de maior impacto.
“Quando inicia o governo, o governo tem capital político. Os governos estão na chamada lua de mel com o Congresso e com a opinião pública. Então, é o momento das decisões difíceis, até porque tem um mandato pela frente”, explicou.
Schüler ressaltou que a capacidade de implementação dessa agenda dependerá da composição da equipe de governo, da relação com o Congresso Nacional e da disposição do Executivo para conduzir as reformas. Para a indústria, a definição dessas prioridades influencia diretamente a confiança empresarial e as decisões de investimento.
“Nós estamos exatamente no momento de incerteza, no momento de olhar o quadro, até para que os empresários possam tomar as suas decisões sobre o investimento”, observou.
Concessões e investimentos em infraestrutura
A ampliação dos investimentos em infraestrutura por meio de concessões e parcerias público-privadas (PPPs) também esteve entre os temas discutidos. Diante das limitações fiscais dos governos, a participação da iniciativa privada foi apontada como uma alternativa para viabilizar projetos e ampliar a capacidade de investimento no país.
Elena Landau demonstrou otimismo com o potencial brasileiro nessa área e destacou a participação das empresas privadas no financiamento de obras e serviços de infraestrutura.
“Eu sou uma pessoa otimista com concessão e PPP. O Brasil tem um pipeline de concessões extraordinário. O setor privado hoje já responde por 70% de todo o investimento em infraestrutura no Brasil”, afirmou.
A economista ponderou, entretanto, que a segurança jurídica e a previsibilidade das decisões públicas são fundamentais para atrair capital privado e garantir o avanço dos projetos.
O debate encerrou a programação de conteúdo da 9ª edição do Imersão Indústria, iniciativa do Sistema FIEMG, com correalização da Confederação Nacional da Indústria (CNI). O evento reuniu especialistas e representantes do setor produtivo para discutir os desafios da indústria brasileira e as perspectivas para o desenvolvimento econômico.
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