Debate na ALMG alerta para “guerra contra as mulheres” diante do avanço do feminicídio
Especialistas e parlamentares discutem falhas na prevenção, violência crescente e a invisibilidade do transfeminicídio
Peito. Face. Cabeça. Mãos. Pescoço. As palavras, associadas a termos como mutilada, espancada, queimada e estrangulada, formam um retrato brutal da violência contra mulheres no Brasil.
A lista foi apresentada como uma “nuvem de palavras” formada a partir de notícias sobre feminicídios publicadas entre 2015 e 2025.
O alerta foi feito durante o ciclo de debates “Educar, decidir, efetivar: bases para enfrentar o feminicídio e as violências contra as mulheres e garantir direitos”, realizado na Assembleia Legislativa de Minas Gerais. O encontro integra a programação do Sempre Vivas, que marca o Dia Internacional da Mulher.
“Existe, de fato, uma guerra contra nós”, afirmou a professora Cláudia Maia, do Departamento de História da Universidade Estadual de Montes Claros e coordenadora do Observatório Norte-mineiro de Violência de Gênero. Ela abriu a mesa de debates sobre as falhas na prevenção e proteção às mulheres.
Segundo a pesquisadora, não há espaços totalmente seguros. O feminicídio ocorre dentro de casa, nas ruas, em escolas e até em ambientes de trabalho.
“Aqui estão as partes do corpo feminino mais agredidas. Esses homens buscam atingir aquilo que marca o feminino. Por isso o rosto das mulheres, por exemplo, se torna alvo preferencial. É um crime de ódio ao feminino”, afirmou.
Recorde de feminicídios no país
Dados do Anuário Brasileiro de Segurança Pública 2025 mostram que o Brasil registrou cerca de 1.470 feminicídios no último ano — o maior número desde que o crime foi tipificado em 2015.
Cláudia Maia destacou que, mesmo com a criação de mais de cem leis voltadas ao enfrentamento da violência durante o período da pandemia, os índices continuaram crescendo. Para ela, o desafio principal é romper com a naturalização da violência.
A pesquisadora também criticou a forma como parte da imprensa trata esses crimes, muitas vezes classificando os casos como “briga de marido e mulher” ou omitindo o nome dos agressores.
“Feminicídio não é crime passional. É um crime de poder”, afirmou.
Segundo ela, a sociedade patriarcal ainda associa masculinidade ao exercício da dominação. Assim, quando mulheres rompem relações abusivas ou conquistam autonomia, podem se tornar alvo de violência.
Influência de grupos misóginos
Cláudia Maia também apontou o crescimento de grupos misóginos na internet como fator de preocupação, citando movimentos como Redpill e comunidades Incell, que disseminam discursos de ódio contra mulheres.
A presidente da Comissão de Defesa dos Direitos da Mulher da ALMG, deputada Ana Paula Siqueira, lembrou um caso recente no qual adolescentes envolvidos em um estupro coletivo foram identificados usando símbolos ligados à cultura Redpill.
Invisibilidade do transfeminicídio
Outro ponto discutido no encontro foi a violência contra mulheres trans. A pesquisadora em políticas públicas Anna Tulie afirmou que o país ainda falha na notificação e no registro de casos de transfeminicídio.
Segundo ela, cerca de 80% das pessoas trans assassinadas no Brasil são negras, o que evidencia também o recorte racial da violência.
“Faltam dados oficiais porque muitas instituições ignoram identidades que fogem da cisnormatividade. O poder público institucionalizou o apagamento da nossa identidade”, afirmou.
A pesquisadora citou o caso de Alice Martins Alves, mulher trans de 33 anos que morreu após ser espancada em 2025 na região da Savassi, em Belo Horizonte. De acordo com Tulie, houve falhas tanto no atendimento de saúde quanto na investigação policial.
Chamado por políticas mais efetivas
Durante o evento, o presidente da Assembleia, Tadeu Leite, destacou em mensagem que, em Minas Gerais, uma mulher é assassinada a cada dois dias. Ele também ressaltou que as mulheres negras são as principais vítimas da violência.
O parlamentar citou iniciativas do Legislativo mineiro para enfrentar o problema, como a Procuradoria da Mulher e o fortalecimento da bancada feminina na Casa.
“Precisamos efetivar a equidade de gênero, decidindo com as mulheres e não pelas mulheres”, afirmou.
A parlamentar também demonstrou preocupação com o risco de gentrificação — quando a requalificação de áreas urbanas leva à substituição de moradores de baixa renda por pessoas com maior poder aquisitivo.
“Dizer que a gentrificação é um processo inerente a intervenções bem-sucedidas mostra que a prefeitura considera bem-sucedidas ações que expulsam moradores de áreas tradicionais da cidade”, afirmou.
Bruno Miranda respondeu que a prefeitura está aberta ao diálogo e lembrou que o projeto passou por consulta pública e audiência na Câmara. Segundo ele, há previsão de que o texto continue sendo discutido nas comissões durante a análise em segundo turno.
Com a aprovação do parecer — por seis votos favoráveis e dois contrários — o projeto já pode ser incluído na pauta do plenário da Câmara. Caso seja aprovado em primeiro turno, o texto retorna às comissões para análise de emendas antes da votação final.
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Fonte: Balcão News


