O vingador voltou e a imprensa que se explique!
O Atlético Mineiro resolveu contrariar os especialistas de plantão, aquela turma que entende de futebol tanto quanto um poste entende de eletricidade. Depois da parada para a Copa do Mundo, o Galo reagiu, levantou a crista e voltou a incomodar. E não é pouca coisa: está na final da Sul-Americana, encara o Grêmio na semifinal da Copa do Brasil e briga por vaga na Libertadores pelo Brasileirão. O calendário virou uma feira de decisões, e o Galo está com banca montada nas três barracas!
A imprensa, que há pouco examinava o alvinegro com lupa de fiscal da Receita, agora precisa trocar o obituário pela manchete. O time saiu da desconfiança para a esperança, e os profetas do desastre estão procurando a gravação das próprias previsões. No futebol, meu amigo, o sujeito decreta a morte do Galo na segunda-feira e, na quarta, precisa explicar por que o defunto está correndo mais que o coveiro!
Mas não há milagre: há trabalho. A administração atleticana merece reconhecimento pelos ajustes, pelo apoio à comissão técnica e pelas contratações pontuais. Em vez de comprar figurões para enfeitar álbum de empresário, o clube procurou peças capazes de resolver problemas dentro das quatro linhas. Quando a direção acerta, o treinador trabalha; quando o treinador trabalha, o time responde. Parece simples, mas há dirigente que precisa de três consultorias e uma comissão para descobrir o óbvio.
E aí aparece o Barba, Eduardo Domínguez, o comandante que foi ajustando a casa sem prometer revolução a cada entrevista. Ganhou o grupo, reorganizou o sistema defensivo e encontrou caminhos para atacar com velocidade. O homem não vendeu ilusão em prestações: tratou de dar identidade ao time. A imprensa já reconhece a transformação, embora alguns analistas ainda procurem o manual de instruções para entender como uma equipe pode melhorar sem contratar onze jogadores por semana.
A grande notícia, porém, é a ressurreição da velha garra atleticana. Voltou o Galo Vingador, aquele que não pede licença, não entrega os pontos e faz o adversário descobrir que noventa minutos podem durar uma eternidade. A camisa alvinegra voltou a carregar aquele recado antigo: aqui ninguém ganha no grito, mas também ninguém leva moleza. Se o rival vier passear, que traga protetor solar; se vier jogar, que prepare as canelas!
Entre os destaques individuais, Reinier, Bernard, Tomás Cuello, Alan Franco e Renan Lodi merecem atenção pela contribuição técnica, mobilidade e participação no funcionamento coletivo. Reinier oferece criatividade e chegada; Bernard articula e encontra espaços; Cuello acelera pelos lados; Alan Franco ajuda a equilibrar o meio-campo; e Renan Lodi dá profundidade ao corredor esquerdo. Não é concurso de miss nem eleição de popularidade: o importante é que cada um entregue serviço. No futebol, currículo bonito não marca gol e sobrenome famoso tampouco desarma contra-ataque.
Taticamente, o Barba aposta em organização defensiva, linhas compactas, ocupação inteligente dos espaços e transições rápidas. O Galo procura fechar os caminhos centrais, recuperar a bola e sair em velocidade, usando a mobilidade dos atacantes para surpreender a defesa adversária. Sem a bola, disciplina; com ela, objetividade. Nada de trocar quarenta passes para terminar devolvendo a pelota ao goleiro rival. Futebol não é concurso de tricô: a bola precisa andar e a rede precisa balançar!
Claro que ainda existem riscos. A recomposição tem de funcionar, a marcação nas bolas paradas exige atenção e o time não pode confundir confiança com licença para cochilar. Em mata-mata, um minuto de distração custa uma classificação; um escanteio mal defendido pode transformar a festa em velório de chuteiras. E ninguém merece ver o Galo construir um castelo durante noventa minutos para depois entregar a chave ao adversário.
Agora vêm as decisões, e nelas não há espaço para soberba. A Sul-Americana exige personalidade; a Copa do Brasil cobra concentração contra o Grêmio; o Brasileirão pede regularidade. Três frentes, três desafios e uma torcida que não nasceu para assistir ao sofrimento sentada, muito menos para aplaudir futebol de repartição pública.
O Atlético voltou a ter ambição, organização e, sobretudo, coragem. Que a administração continue acertando, que o Barba mantenha a mão firme e que os jogadores entendam o tamanho da oportunidade. O Galo não precisa de discurso inflamado todos os dias: precisa de futebol, compromisso e bola na rede.
Porque o Galo Vingador não nasceu para ser nota de rodapé. Nasceu para ser manchete! E, se os pessimistas não gostarem, que reclamem à diretoria do campeonato: o alvinegro voltou a disputar títulos, e isso dá uma trabalheira danada para quem já tinha preparado o epitáfio!
Né não?
Afonso Canabrava
- Instagram: @afonsocanabrava
Afonso Canabrava nasceu na Rua São Paulo há 5 quadras do campo do Galo, aonde foi criado e aprendeu a nadar, jogar futebol e outras avenças. Foi contemporâneo dos comentários “lesco-lesco” do Kafunga, da presidência de Nelson Campos e de jogadores como Ubaldo, Dario, Reinaldo e tantos outros. Nessa época comemorou o pentacampeonato Mineiro e do Brasileirão. Torcedor contra o vento diante de uma camisa do Galo dependurada no varal, é ferrenho crítico de futebol e todas as suas nuances.
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