Entre o direito conquistado, o desencanto com a política e a responsabilidade pelo futuro.
Exatamente 33.469.244 brasileiros deixaram de comparecer às urnas no primeiro turno das eleições de 2026. São 21,08% do eleitorado apto a votar. O número impressiona, sobretudo em um país onde o voto é obrigatório para a maioria dos eleitores.
Mas, às vésperas de mais uma decisão eleitoral, talvez a pergunta mais importante não seja por que tantas pessoas deixaram de votar. A questão é outra: por que votar?
Para compreender a importância desse gesto aparentemente simples, é preciso olhar para a história. O direito de escolher nossos governantes nem sempre esteve ao alcance de todos.
Durante muito tempo, parcelas expressivas da população brasileira foram excluídas do processo eleitoral. Mulheres, analfabetos e outros segmentos da sociedade enfrentaram restrições que hoje parecem incompatíveis com os princípios democráticos.
Em 1932, o primeiro Código Eleitoral brasileiro reconheceu o direito de voto das mulheres e estabeleceu novas regras para o exercício do sufrágio. Foi um marco na ampliação da participação política.
Décadas depois, a Constituição de 1988 consolidou avanços fundamentais, incluindo o direito de voto dos analfabetos e dos jovens de 16 e 17 anos, ainda que de forma facultativa.
O voto, portanto, não surgiu como uma concessão generosa dos governantes. Sua história está ligada a reivindicações, transformações sociais e à luta pela ampliação da cidadania.
É justamente por isso que os elevados índices de abstenção merecem uma reflexão mais profunda.
É compreensível que muitos brasileiros estejam desencantados com a política.
Escândalos de corrupção, promessas não cumpridas, disputas intermináveis e a crescente polarização alimentam a descrença nas instituições e nos representantes eleitos.
Para alguns cidadãos, deixar de votar tornou-se uma forma de protesto, uma maneira de demonstrar que já não confiam em nenhum dos candidatos.
Mas será que essa atitude produz o resultado desejado?
A ausência deliberada das urnas não impede a eleição de ninguém. Os candidatos continuarão disputando os votos daqueles que comparecerem, e o vencedor exercerá o poder sobre toda a sociedade, inclusive sobre aqueles que preferiram não participar da escolha.
O mesmo raciocínio se aplica, com algumas diferenças, aos votos brancos e nulos.
Embora possam representar uma manifestação legítima de insatisfação, não são considerados votos válidos para a definição do vencedor. Não anulam a eleição, não provocam uma nova disputa e tampouco impedem que um dos candidatos seja eleito.
Há, portanto, um paradoxo nessa forma de protesto: ao tentar demonstrar sua rejeição à política, o cidadão abre mão de utilizar justamente um dos principais instrumentos de que dispõe para influenciar seus rumos.
A importância de cada voto torna-se ainda mais evidente em disputas eleitorais acirradas, como a que estamos vivenciando.
Não por acaso, os candidatos intensificam suas estratégias para conquistar os eleitores indecisos, especialmente nos debates televisivos e nos últimos dias de campanha. Sabem que uma diferença relativamente pequena de votos pode determinar quem vencerá a eleição.
Mas é justamente nesse momento que o eleitor precisa redobrar sua atenção.
Na disputa pelos votos ainda não conquistados, multiplicam-se Fake News, promessas, discursos cuidadosamente elaborados e narrativas destinadas a despertar expectativas, medos e esperanças.
Nem sempre, porém, aquilo que se promete ou que se afirma encontra respaldo na realidade ou nas condições efetivas de implementação. Cabe ao cidadão distinguir propostas viáveis de meras estratégias de convencimento, confrontando discursos com fatos, trajetórias e resultados.
Há, portanto, uma contradição que merece reflexão: enquanto os candidatos disputam intensamente cada voto, muitos cidadãos parecem não reconhecer o valor daquele que têm nas mãos.
O voto que o eleitor considera insignificante pode ser exatamente aquele que os candidatos mais desejam conquistar. E, se é tão valioso para quem pretende exercer o poder, deveria ser ainda mais importante para quem tem a prerrogativa de concedê-lo.
A Constituição Federal estabelece, em seu artigo 1º, parágrafo único, que “todo o poder emana do povo, que o exerce por meio de representantes eleitos ou diretamente, nos termos desta Constituição”.
Não se trata de uma declaração meramente simbólica. É o fundamento da soberania popular e da própria legitimidade do regime democrático.
Se o poder emana do povo, o voto representa uma das formas mais concretas de exercê-lo. É por meio dele que participamos da escolha daqueles que tomarão decisões sobre a economia, a saúde, a educação, a segurança pública e tantas outras questões que interferem diretamente em nossas vidas.
E essas decisões não afetam apenas o presente. Suas consequências podem alcançar nossos filhos, nossos netos e as gerações que ainda virão.
É preciso reconhecer que nenhuma eleição oferece necessariamente candidatos capazes de corresponder integralmente às expectativas de cada eleitor.
A democracia não pressupõe escolhas perfeitas. Exige, porém, a possibilidade de avaliar propostas, comparar trajetórias, examinar compromissos e decidir, com consciência crítica, qual alternativa representa melhor aquilo que consideramos importante para a sociedade.
Votar não significa conceder um cheque em branco a quem vence. Tampouco significa renunciar ao direito de criticar, fiscalizar e cobrar os governantes. Ao contrário, o exercício da cidadania deve continuar depois das eleições.
Também não se trata de defender que alguém seja obrigado a apoiar um candidato em quem não acredita. A liberdade de consciência é indispensável à democracia. Mas é necessário compreender que a decisão de não participar da escolha não nos coloca à margem de suas consequências.
Quem deixa de votar não impede que outros decidam. Apenas renuncia à oportunidade de participar dessa decisão.
Talvez seja esse o maior equívoco de quem transforma a abstenção em protesto: imaginar que, ao se afastar das urnas, estará se afastando também da política.
Isso é impossível. A política continuará presente no preço dos alimentos, nos serviços públicos, nas oportunidades de trabalho, na escola dos filhos e no futuro da família.
O voto não é um prêmio que concedemos a um candidato. É um instrumento de poder que exercemos em defesa dos nossos próprios interesses e do futuro da sociedade.
Às vésperas de mais uma eleição, vale recordar que a democracia não se fortalece apenas pela existência de urnas, partidos e instituições. Ela depende, sobretudo, da participação consciente dos cidadãos.
Não precisamos concordar com todos os candidatos. Não precisamos aceitar promessas sem questionamento. E certamente não devemos abandonar nosso direito de fiscalizar aqueles que forem eleitos.
Mas precisamos compreender que a democracia também exige responsabilidade diante das escolhas coletivas.
Porque, quando abrimos mão de escolher, outros escolhem por nós. E o futuro que resultar dessas escolhas será também o nosso, o de nossos filhos e o de nossos netos.
Walter Nery
Advogado e jornalista
- Instagram: Walter Hilel
- As opiniões contidas nesta coluna não refletem necessariamente a opinião do portal Balcão News.
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