Seleção Brasileira: O futuro do futebol compromete – Canabrava em Campo
Seleção Brasileira: O futuro do futebol compromete
Quem ainda acredita que está assistindo ao velho futebol precisa trocar os óculos. Ou o canal. O futebol foi embora sem deixar endereço. No lugar daquele espetáculo que fazia o torcedor esquecer até a prestação da geladeira, entrou uma fábrica de corredores profissionais. Hoje ninguém dribla. Todo mundo corre. E corre tanto que, se o gol fosse em Brasília e o estádio em Goiânia, talvez chegassem mais rápido.
Nesta Copa do Mundo de 2026, a imprensa esportiva repetiu quase em coro uma conclusão indigesta: o Brasil continua competitivo, organizado, intenso, disciplinado… e, quase sempre, previsível. A Seleção mostrou entrega, mas deixou a impressão de que criatividade virou artigo de luxo. Houve partidas vencidas na base da persistência, da força física e da obediência tática, porém o brilho apareceu apenas em lampejos. O torcedor queria aplausos; terminou distribuindo suspiros de alívio.
Inventaram um tal de “jogo posicional”. Bonito nome. Na prática significa vinte e dois cidadãos ocupando espaços com a precisão de quem estaciona automóvel em shopping center. O camisa 10 recebe a bola, olha para a frente, vê um companheiro livre… e toca para trás. O zagueiro agradece, o volante comemora, o treinador bate palmas e o torcedor pergunta ao neto onde foi parar o futebol.
Antigamente havia ponta-direita. Hoje existe “extremo”. Antes existia centroavante. Agora é “nove móvel”. Lateral virou “ala construtor”. Volante atende pelo elegante nome de “primeiro homem de meio”. Mudaram tanto os nomes que qualquer dia chamarão gol de “evento ofensivo de conclusão positiva”.
E não me venham dizer que isso é evolução. Evolução era Pelé fazer chover talento. Garrincha transformar marcador em poste de iluminação. Ronaldo Fenômeno arrancar do meio-campo como se estivesse fugindo do imposto de renda. Ronaldinho Gaúcho dar um sorriso antes do drible e outro depois da humilhação. Maradona pegava uma bola no círculo central e obrigava meio estádio a levantar antes mesmo de concluir a jogada. Aqueles, sim, eram artistas. Os de hoje parecem funcionários do setor de logística da bola.
A verdade é que o dinheiro descobriu um excelente negócio. O futebol virou indústria multinacional. Nunca houve tantos atletas, tantos empresários, tantos analistas, tantos preparadores, tantos fisiologistas, tantos computadores e tantos gráficos. Só esqueceram de fabricar craques.
Quanto mais dinheiro entra, mais cedo o menino deixa de brincar para virar ativo financeiro. Antes ele aprendia a driblar o cachorro na rua. Hoje aprende a cumprir protocolo. Aos quinze anos já sabe fazer pressão alta, recomposição defensiva, cobertura diagonal, balanço defensivo e transição negativa. Pena que ainda não saiba aplicar um chapéu sem pedir autorização ao auxiliar técnico.
O futebol moderno desconfia do improviso como banqueiro desconfia de cheque sem fundo. Se o ponta resolve partir para cima, logo aparece alguém gritando: “Cadê a recomposição?” Resultado: o rapaz volta correndo, entrega a bola ao lateral e recebe elogios pela disciplina. O drible morreu de vergonha.
A indústria agradece. O patrocinador sorri. O mercado financeiro aplaude. As estatísticas explodem. O GPS informa que o atacante percorreu doze quilômetros. Maravilha. Só esqueceram de perguntar quantos metros ele fez o torcedor sair da cadeira.
E, no entanto, existe uma notícia boa. O futebol brasileiro sempre teve a mania de desobedecer. Em algum campinho de barro, escondido neste país continental, deve haver um moleque ignorando planilhas, estatísticas, mapas de calor e inteligência artificial. Está apenas brincando de bola. Dribla porque acha divertido. Dá caneta porque não conhece a palavra “protocolo”. Arrisca porque ainda não lhe ensinaram que errar é pecado.
Tomara que demorem a encontrá-lo.
Porque, no dia em que colocarem um GPS nas costas desse menino, um analista na orelha e uma planilha na cabeça, talvez nasça mais um atleta perfeito.
E morra mais um craque.
Né não?
Afonso Canabrava
Afonso Canabrava nasceu na Rua São Paulo há 5 quadras do campo do Galo, aonde foi criado e aprendeu a nadar, jogar futebol e outras avenças. Foi contemporâneo dos comentários “lesco-lesco” do Kafunga, da presidência de Nelson Campos e de jogadores como Ubaldo, Dario, Reinaldo e tantos outros. Nessa época comemorou o pentacampeonato Mineiro e do Brasileirão. Torcedor contra o vento diante de uma camisa do Galo dependurada no varal, é ferrenho crítico de futebol e todas as suas nuances.
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Fonte: Balcão News