Quando dizem que o futebol morreu – Canabrava em Campo!

Quando dizem que o futebol morreu – Canabrava em Campo!

Quando dizem que o futebol morreu

Dizem isso com a mesma convicção com que se anuncia o fim do amor, da moral e da sobremesa de domingo. Mas o futebol, esse canalha sentimental, não morre, ele se muda. E, desta vez, mudou-se para os Estados Unidos, terra onde tudo vira espetáculo, até o silêncio.

A próxima Copa do Mundo terá 48 países. Quarenta e oito! É como se o planeta inteiro resolvesse, de súbito, chutar uma bola e discutir impedimento. Antigamente, a Copa era um baile restrito, quase aristocrático. Hoje, é um carnaval universal, onde até o sujeito que nunca viu uma bola de couro se acha no direito de palpitar. E palpita com a autoridade de um bêbado em mesa de bar.

Os puristas torcem o nariz. “Perdeu a graça”, dizem, como se a graça do futebol estivesse na exclusão. Ora, o futebol nunca foi democrático, ele foi dramático. E continuará sendo. Porque basta um chute mal dado, um goleiro traído pela própria mão, e pronto: temos uma tragédia digna de teatro grego. O resto é geografia.

E que geografia! A Copa nos Estados Unidos será um desfile de estádios colossais, telões gigantescos e um público que talvez confunda escanteio com intervalo comercial. Mas não subestimem o americano: ele pode não entender o jogo, mas entende o espetáculo. E o futebol, no fundo, sempre quis ser isso, uma novela de chuteiras.

A mídia esportiva, essa entidade onisciente e frequentemente equivocada, já escolheu seus favoritos. São cinco potências que entram em campo como se carregassem o destino do mundo nos ombros: Brasil, Argentina, França, Inglaterra e Espanha.

O Brasil, como sempre, joga com a nostalgia. Carrega nas costas não apenas a camisa amarela, mas fantasmas de Copas passadas. É um time que precisa vencer não só o adversário, mas também a própria memória.

A Argentina vem com a arrogância dos que já provaram o gosto recente da glória. Joga como quem diz: “Ganhei ontem, posso ganhar hoje”. E essa confiança, às vezes, é mais perigosa que qualquer tática.

A França é o futebol moderno em estado puro: técnica, força e uma certa frieza que assusta. Não sorri, não chora, executa.

A Inglaterra, por sua vez, vive de promessas. É o eterno “agora vai”, que nunca vai. Mas insiste. E essa insistência, quem sabe, um dia vira destino.

E a Espanha, com seu toque de bola quase filosófico, tenta provar que o futebol pode ser uma obra de arte. Às vezes consegue. Outras vezes, transforma-se em um quadro bonito que ninguém entende.

E enquanto discutimos números, sedes e favoritos, o torcedor, esse personagem trágico e cômico, continua o mesmo. Sofre antes, durante e depois. Xinga, reza, promete. E, no fundo, sabe: não importa se são 32 ou 48 seleções, se é no Maracanã ou em Miami. O que importa é aquele instante mágico em que a bola entra no gol e o mundo, por um segundo, faz sentido.

Porque o futebol, meu caro, não é sobre lógica. É sobre fé. E a fé, como sabemos, não precisa de explicação, apenas de um bom motivo para acreditar.

Mas, no fim das contas, tudo isso é ilusão. A Copa não respeita favoritos. Ela é caprichosa, traiçoeira, quase vulgar. Gosta de derrubar gigantes e consagrar anônimos. É a única competição onde um desconhecido pode acordar herói e dormir esquecido.

E enquanto discutimos números, sedes e favoritos, o torcedor, esse personagem trágico e cômico, continua o mesmo. Sofre antes, durante e depois. Xinga, reza, promete. E, no fundo, sabe: não importa se são 32 ou 48 seleções, se é no Maracanã ou em Miami. O que importa é aquele instante mágico em que a bola entra no gol e o mundo, por um segundo, faz sentido.

Né não?

Afonso Canabrava

  • Afonso Canabrava nasceu na Rua São Paulo, há 5 quadras do campo do Galo, aonde foi criado e aprendeu a nadar, jogar futebol e outras avenças. Foi contemporâneo dos comentários “lesco-lesco” do Kafunga, da presidência de Nelson Campos e de jogadores como Ubaldo, Dario, Reinaldo e tantos outros. Nessa época comemorou o pentacampeonato Mineiro e do Brasileirão. Torcedor contra o vento diante de uma camisa do Galo dependurada no varal, é ferrenho crítico de futebol e todas as suas nuances.
  • As opiniões contidas neste artigo não refletem necessariamente a opinião do portal Balcão News.

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Fonte: Balcão News