Mulheres cuidado! Canabrava fora de campo
Mulheres cuidado!
Entre meados de 2024 e dezembro de 2025, vivi o processo de uma separação conjugal. Até que, finalmente, separaram de mim.
Foi quando “caí na pista”, expressão que, no meu caso, significa voltar ao mundo dos solteiros depois de muitos anos de casamento, e descobri uma coisa curiosa: o mundo dos separados é um imenso congresso de queixas, onde homens e mulheres comparecem carregando, cada qual, sua própria tese de doutorado sobre a culpa do outro.
Não fiz enquete alguma. Nem precisei. As opiniões vieram espontaneamente, como aquelas músicas que ninguém pediu, mas acabam tocando em todo lugar.
Os homens diziam:
— As mulheres estão doidas!
As mulheres respondiam:
— Não existem mais homens como antigamente!
E, para minha surpresa, descobri que ambos têm razão.
O que mais me impressionou, entretanto, foi a necessidade quase olímpica que os separados têm de encontrar um culpado. Parece que casamento é uma sociedade em que, quando dá certo, os dois assinam; quando dá errado, cada um procura um advogado.
Ora, quando duas pessoas se casam, ninguém pergunta quem é o culpado. Simplesmente se apaixonam, juntam as escovas de dentes, compram móveis, fazem planos e começam a vida.
Na separação, deveria ser a mesma coisa: não há necessariamente culpado. Há duas pessoas que, por alguma razão, decidiram não continuar juntas.
E pronto.
Mas não é bem assim.
Separação é quase um óbito. Às vezes, até pior: no óbito, pelo menos ninguém manda mensagem às duas da manhã dizendo que você destruiu a família.
Quando existem filhos, então, a coisa ganha outra dimensão. Não termina apenas um casamento; muitas vezes, desmancha-se uma rotina, muda-se a casa, dividem-se afetos, horários, responsabilidades e até os lugares à mesa. A família, que parecia uma construção sólida, descobre que também pode ter infiltração.
E aqui faço uma ressalva às mulheres separadas.
Talvez Deus, com a devida vênia, não tenha sido particularmente generoso com elas nesse capítulo.
Muitas passam anos administrando a casa, os filhos, a família e ajudando muito os maridos, depois da separação, precisam entrar no mercado de trabalho, frequentemente começando tarde, ganhando pouco e descobrindo, às vezes com brutalidade, que experiência doméstica não vem acompanhada de carteira assinada.
Depois dos 45, refazer a vida sentimental também não costuma ser exatamente uma operação de alta liquidez. A juventude ajuda, a beleza ajuda, o entusiasmo ajuda e o espelho, às vezes, não ajuda em absolutamente nada.
Quanto às pensões, melhor nem entrar em detalhes. Algumas são tão generosas que, se o dinheiro der para pagar o café do sítio, é prudente tomar sem açúcar.
Diante do impressionante número de separações, começo a desconfiar de que talvez não existam tantos culpados assim. Talvez exista um sistema social inteiro empurrando os casais para o desentendimento, para a impaciência e, finalmente, para a separação.
E os menos culpados, em muitos casos, sejam justamente os dois que estão dentro do casamento.
Sexo também entra nessa história. Não sei se é o começo, o meio ou o fim da novela, mas certamente participa do elenco. Quando falta diálogo, inteligência e bom senso, o casal deixa de ser casal e vira paisagem doméstica.
E aí aparece a traição, essa velha invenção humana que costuma começar com uma grande estupidez e terminar com uma quantidade ainda maior de consequências.
Por isso, mulheres, antes de sair da frigideira, olhem bem para o fogo.
Homens, façam a mesma coisa.
Porque, no mundo dos separados, descobri uma verdade definitiva:
trocar de vida é fácil; difícil é descobrir, depois, se a nova era realmente é melhor do que a antiga.
Né não?
Afonso Canabrava
- Instagram: @afonsocanabrava
Canabrava é jornalista desde o tempo do jornal O Sol, distribuído como suplentento do Jornal dos Sports. É uma enciclopédia viva da história de Belo Horizonte e um descobridor de assuntos interessantes.
- As opiniões contidas neste artigo não refletem necessariamente a opinião do portal Balcão News.
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