Galo: Lamentável!
Entre a euforia, a ressaca e a decisão continental: o Atlético precisa parar de tropeçar nas próprias esporas!
O futebol é uma caixinha de surpresas. E o Atlético Mineiro resolveu transformar a caixinha num guarda-roupa inteiro de emoções. Há pouco tempo, o Galo era uma locomotiva, atropelava adversários, colecionava invencibilidade e fazia a torcida acreditar que 2026 terminaria com mais taças na prateleira. Agora, parece que alguém desligou o motor e esqueceu de avisar o maquinista!
Depois de uma sequência de 14 partidas sem perder, o time entrou numa descida de ladeira que nem freio de caminhão consegue explicar. São cinco derrotas nos últimos seis jogos. Perdeu o embalo, perdeu a confiança e, diante do Grêmio, perdeu também a vaga na final da Copa do Brasil.
Na Arena MRV, diante de mais de 42 mil torcedores, o Galo empatou por 1 a 1. Renan Lodi marcou, a esperança respirou, mas Carlos Vinícius tratou de lembrar que futebol não se ganha com retrospectiva. Como havia perdido por 2 a 0 em Porto Alegre, o Atlético deu adeus à competição. O Grêmio, que também não anda fazendo campanha de encher os olhos no Brasileirão, mostrou que mata-mata não é concurso de beleza: é saber jogar quando a coisa aperta.
E aqui começa a conversa sem anestesia!
A imprensa esportiva apontou problemas de planejamento, elenco limitado, lesões e escolhas questionáveis do treinador Eduardo Domínguez. Ora, convenhamos: um clube que pretende disputar três competições importantes não pode descobrir, na semifinal, que está sem centroavante de ofício. Isso não é azar, companheiros! É planejamento fazendo estágio no departamento de achados e perdidos.
O treinador assumiu a responsabilidade pela eliminação. Atitude louvável. Mas responsabilidade não pode virar apenas discurso de coletiva. É preciso explicar por que o time perdeu organização, por que as substituições não surtiram o efeito esperado e por que jogadores importantes ficaram sem condições de oferecer o que se esperava deles.
E o tal calendário? É verdade que o futebol brasileiro virou uma fábrica de moer jogadores. Mas os adversários também jogam, também viajam e também têm departamento médico. Não dá para colocar todas as derrotas na conta do calendário, como se a tabela fosse um juiz ladrão!
O problema parece mais profundo: elenco curto em posições decisivas, desgaste físico, ausências importantes e uma equipe que, depois de sofrer um gol, às vezes perde a cabeça junto com a organização tática.
Mas seria injustiça jogar toda a culpa nas costas do treinador. Bernard, que chegou a ser protagonista, Reinier, que recuperou o futebol e alcançou dez gols, e outros jogadores demonstraram que existe qualidade nesse grupo. O problema é fazer essa qualidade aparecer durante os 90 minutos, e não apenas nos melhores momentos da televisão.
A torcida fez sua parte. A Arena MRV estava cheia, a rua de fogo acendeu e a Massa empurrou. Só faltou o time entender que sinalizador não faz gol, arquibancada não marca centroavante e paixão não substitui organização tática.
E agora, Galo?
Ainda há uma oportunidade de ouro: a final da Copa Sul-Americana, contra o Boca Juniors, da Argentina. É a chance de transformar a temporada, recuperar a autoestima e mostrar que o Atlético não é apenas um colecionador de promessas.
Mas cuidado! O Boca não é freguês de padaria. É camisa pesada, tradição continental e adversário que sabe muito bem como disputar decisões. Não adianta entrar em campo com o currículo de 2013, 2014 ou 2021 debaixo do braço. História ajuda a encher o peito, mas não entra em campo para desarmar ninguém.
O Brasileirão também continua importante, e a classificação para a Libertadores ainda pode ser conquistada pela campanha nacional. Entretanto, a Sul-Americana oferece uma oportunidade que não pode ser desperdiçada.
Minha receita para o Galo é simples: menos conversa, mais futebol; menos improvisação, mais planejamento; menos jogador no departamento médico e mais jogador dentro das quatro linhas.
E, sobretudo, que a diretoria entenda uma coisa: contratar reforços não é comprar figurinha para completar álbum. É identificar onde o time está mancando e colocar jogadores capazes de fazê-lo andar. Um centroavante, por exemplo!
A Massa já demonstrou que sabe sofrer, acreditar e comparecer. Agora, os jogadores precisam demonstrar que sabem corresponder.
O Galo ainda pode salvar o ano. Mas precisa abandonar a mania de transformar esperança em teste cardíaco para sua torcida.
Como diria um velho malandro das arquibancadas: futebol não é ciência exata, mas também não é sessão espírita. Não adianta esperar que o espírito de Reinaldo, Dadá Maravilha ou Ronaldinho entre em campo para resolver a bagunça!
Acorda, Galo! Ainda dá tempo de cacarejar alto, levantar uma taça e mostrar que o terreiro continua sendo nosso.
Porque torcedor atleticano não exige milagres todos os domingos. Exige apenas que o time jogue futebol. E, convenhamos, isso não deveria ser pedir demais!
Né não?
Afonso Canabrava
- Instagram: @afonsocanabrava
Afonso Canabrava nasceu na Rua São Paulo há 5 quadras do campo do Galo, aonde foi criado e aprendeu a nadar, jogar futebol e outras avenças. Foi contemporâneo dos comentários “lesco-lesco” do Kafunga, da presidência de Nelson Campos e de jogadores como Ubaldo, Dario, Reinaldo e tantos outros. Nessa época comemorou o pentacampeonato Mineiro e do Brasileirão. Torcedor contra o vento diante de uma camisa do Galo dependurada no varal, é ferrenho crítico de futebol e todas as suas nuances.
- As opiniões contidas neste artigo não refletem necessariamente a opinião do portal Balcão News.
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