O Galo e a Copa do Brasil – Canabrava em Campo
O Galo e a Copa do Brasil
O Atlético está diante daquela situação que o torcedor atleticano conhece desde que descobriu que futebol não é esporte para cardíaco: a classificação para a semifinal da Copa do Brasil está ali, ao alcance da mão, mas a mão, no Galo, nunca deixa de tremer um pouquinho.
É a velha história: o sujeito está na porta do paraíso, mas antes de entrar precisa conferir se não deixou a carteira no táxi.
Copa do Brasil não é campeonato de pontos corridos. Não adianta fazer conta, consultar tabela, chamar o matemático da NASA ou perguntar ao porteiro do prédio. Aqui, cada jogo é uma guerra e cada gol vale como escritura pública.
E o Galo tem uma característica que nenhum estatístico conseguiu colocar numa planilha: quando todo mundo acha que acabou, ele inventa uma maneira de continuar.
Pode ser bonito? Nem sempre.
Pode ser organizado? Aí já estamos pedindo demais.
Mas pode ser emocionante? Isso o Galo entrega com a pontualidade de um cobrador de impostos.
O torcedor entra no estádio com o coração no bolso, tira o coração do bolso, coloca na boca e fica esperando os acontecimentos.
Se o Galo fizer um gol cedo, ninguém comemora tranquilo. Primeiro olha para o relógio. Depois para o juiz. Depois para o VAR. E finalmente pergunta ao sujeito ao lado:
Está valendo mesmo?
Porque torcedor do Atlético não acredita nem em gol do próprio time sem confirmação em três instâncias e parecer do Supremo.
E é aí que aparece o espírito atleticano.
O Galo não joga apenas contra o adversário. Joga contra a ansiedade, contra a corneta, contra o retrospecto e contra aquela voz interior dizendo:
“Eu conheço esse filme…”
Conhece mesmo.
É o filme em que o Galo faz o torcedor sofrer durante noventa minutos e, quando finalmente classifica, o sujeito abraça até quem estava sentado duas fileiras atrás.
Mata-mata é assim. Não existe classificação elegante. Existe classificação.
Pode ser com golaço, canela, rebote, bola desviada, defesa milagrosa do Everson ou um chute tão torto que entra por pura falta de educação da física.
Se entrar, está ótimo.
O resto é conversa de comentarista.
Agora é concentração. O Galo não pode entrar achando que já está na semifinal, mas também não precisa inventar uma obra-prima. Precisa fazer o simples:
marcar, correr, brigar e jogar.
E, se possível, não inventar moda na defesa, porque o torcedor já tem problemas suficientes para ainda precisar aprender primeiros socorros na arquibancada.
Em campeonato longo, pode-se errar hoje e consertar amanhã. Na Copa do Brasil, errar pode significar passar o resto da temporada dizendo:
“Se aquela bola tivesse entrado…”
Não existe frase mais dolorosa no futebol brasileiro.
Portanto, que venha o jogo.
Que o Galo entre com faca nos dentes, cabeça no lugar e coração no peito.
E que o torcedor faça aquilo que sabe fazer melhor: sofrer antes, sofrer durante e, se houver classificação, dizer que nunca teve dúvida.
Mentira.
Teve dúvida. Muita.
Mas isso também faz parte da profissão de ser atleticano.
Porque ser Galo é acreditar quando parece possível, desconfiar quando parece fácil e transformar uma classificação numa experiência espiritual de proporções bíblicas.
Se o Atlético passar, ninguém vai querer saber como.
Semifinal não pergunta documento, não exige currículo e não pede explicação.
Semifinal é semifinal.
E, se o Galo chegar lá, pode fechar as janelas, preparar o cafezinho e avisar ao cardiologista:
O Atlético continua vivo. E isso, para nós, já é uma forma bastante particular de felicidade.
Né não?
Afonso Canabrava
- Instagram: @afonsocanabrava
Afonso Canabrava nasceu na Rua São Paulo há 5 quadras do campo do Galo, aonde foi criado e aprendeu a nadar, jogar futebol e outras avenças. Foi contemporâneo dos comentários “lesco-lesco” do Kafunga, da presidência de Nelson Campos e de jogadores como Ubaldo, Dario, Reinaldo e tantos outros. Nessa época comemorou o pentacampeonato Mineiro e do Brasileirão. Torcedor contra o vento diante de uma camisa do Galo dependurada no varal, é ferrenho crítico de futebol e todas as suas nuances.
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