Acordou ou resolveu lembrar que é Galo! Canabrava em Campo
Acordou ou resolveu lembrar que é Galo!
Dizem que o futebol não tem memória. Conversa fiada! Tem, sim. E quando resolve se vingar, cobra com juros, correção monetária e ainda manda o VAR conferir.
Antes da Copa, o Atlético parecia um sanfoneiro desafinado: apertava de um lado, desafinava do outro. A bola queimava nos pés, o meio-campo era uma praça de alimentação, a defesa distribuía convites para os atacantes adversários e a torcida já rezava mais do que freira em convento. A imprensa, sem piedade, decretava que o Galo jogava um futebol burocrático, sem alma, sem coragem e, pior pecado de todos, sem aquele atrevimento que sempre fez do Atlético um clube diferente.
Mas eis que o futebol, esse velho debochado, resolveu aprontar das suas.
O primeiro tempo contra o Bahia já foi um aviso aos navegantes. Não era apenas uma melhora. Era outro Atlético. Havia intensidade, aproximação, triangulações, marcação alta, jogadores correndo por prazer e não por obrigação. Parecia que alguém havia retirado uma âncora presa nas chuteiras alvinegras.
A imprensa começou a desconfiar.
“Calma”, diziam alguns. “Foi só um bom primeiro tempo.”
Pois bem…
Ontem, contra o Palmeiras, veio a resposta.
E que resposta!
O Atlético olhou para um dos elencos mais caros da América do Sul e disse, sem abrir a boca:
— “Pode trazer etiqueta de milionário. Aqui quem manda é quem joga bola.”
Foi um Galo agressivo, inteligente e valente. Daqueles que bicam sem pedir licença. Que cercam, apertam, roubam a bola e ainda perguntam ao adversário se ele quer mais um pouquinho de sofrimento.
O Palmeiras, acostumado a controlar partidas, passou boa parte do jogo correndo atrás da sombra atleticana. Parecia turista procurando Wi-Fi em cidade do interior.
E como cresceu esse time!
A defesa já não parecia um condomínio de portas abertas.
O meio-campo voltou a pensar futebol.
O ataque reaprendeu a ser cruel.
E, principalmente, apareceu algo que andava desaparecido: confiança.
Porque futebol, meus amigos, não se compra na vitrine. Confiança é igual carvão de locomotiva: quando pega fogo, ninguém segura.
A mídia esportiva foi praticamente unânime ao reconhecer a transformação. O Atlético mostrou organização, intensidade, compactação e uma personalidade que andava escondida em algum armário da Cidade do Galo.
Claro que ninguém ganha campeonato em duas partidas.
Também seria uma enorme bobagem imaginar que todos os problemas evaporaram como fumaça de churrasco.
Mas há diferenças que saltam aos olhos.
Antes da Copa, o Atlético jogava olhando para o relógio.
Agora joga olhando para o gol.
Antes, parecia esperar o erro do adversário.
Agora obriga o adversário a errar.
Antes, a torcida saía do estádio discutindo quem havia jogado menos.
Agora sai discutindo quem jogou mais.
E isso muda tudo.
O futebol brasileiro continua essa usina de exageros. Quando perde duas, enterram o treinador antes mesmo da missa de sétimo dia. Quando ganha duas, já querem construir estátua em bronze.
Nem uma coisa nem outra.
Mas também não sejamos cegos.
Há sinais muito claros de que alguma engrenagem voltou a funcionar.
Se esse espírito permanecer, se essa entrega continuar e se essa coragem virar rotina, o Campeonato Brasileiro ganha um concorrente, para classificar para a libertadores, que muita gente já havia descartado cedo demais.
E convém lembrar uma velha verdade que nenhum computador, estatística ou comentarista de sofá conseguiu desmentir:
Quando o Galo resolve jogar futebol de verdade, até a lógica pede licença para entrar em campo.
E, convenhamos…
O futebol brasileiro fica muito mais bonito quando o velho e irreverente Galo volta a cantar alto, bater asas, assustar os favoritos e lembrar ao país inteiro que, em Minas Gerais, existe um bicho que nunca foi criado para ciscar… foi criado para brigar.
Né não?
Afonso Canabrava
- Instagram: @afonsocanabrava
Afonso Canabrava nasceu na Rua São Paulo há 5 quadras do campo do Galo, aonde foi criado e aprendeu a nadar, jogar futebol e outras avenças. Foi contemporâneo dos comentários “lesco-lesco” do Kafunga, da presidência de Nelson Campos e de jogadores como Ubaldo, Dario, Reinaldo e tantos outros. Nessa época comemorou o pentacampeonato Mineiro e do Brasileirão. Torcedor contra o vento diante de uma camisa do Galo dependurada no varal, é ferrenho crítico de futebol e todas as suas nuances.
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