Galo: Parou de procurar herói e resolveu jogar futebol

Galo: Parou de procurar herói e resolveu jogar futebol

Parou de procurar herói e resolveu jogar futebol

Tem gente na imprensa que entende de futebol do mesmo jeito que peru entende de Natal. Todo ano aparece cheia de certezas e, no fim, acaba desmoralizada.

Bastou o Hulk sair para uma legião de especialistas decretar o enterro do Atlético. Fizeram plantão fúnebre, encomendaram a missa de sétimo dia e só faltou dividir a herança do defunto. Esqueceram um detalhe: o morto recusou o caixão.

Enquanto os profetas do desastre afiavam o discurso, o Galo tratou de afiar o futebol. Hoje está nas quartas de final da Copa do Brasil, firme na Sul-Americana e já farejando uma vaga na Libertadores pelo Brasileirão. Não é obra do acaso. É obra de quem trabalha, de quem acredita e de quem descobriu que camisa pesada não entra em campo sozinha.

A diretoria faz ginástica olímpica sem colchão. Contrata um, empresta outro, renegocia aqui, aperta ali e faz o caixa parecer elástico. Se existisse Olimpíada da criatividade financeira, o Atlético já tinha medalha de ouro, prata e bronze.

E o melhor de tudo foi assistir ao renascimento de jogadores que a própria torcida já havia mandado para o museu. A imprensa também. Tinham colocado placa de “fim de carreira”. Pois o futebol, esse moleque debochado, resolveu rir da cara de todo mundo. Os veteranos voltaram a correr, marcar, criar e jogar bola. Descobriram que ainda sabiam onde ficava o gol.

Agora, convenhamos: aquela classificação na Copa do Brasil foi uma tremenda sacanagem com quem tem problema cardíaco. O gol saiu quando até o relógio estava pedindo substituição. Foi no último segundo. Último mesmo. Se demorasse mais um piscar de olhos, a bola chegava depois do apito. Aquilo não foi gol. Foi um assalto autorizado pelo regulamento.

E o Hulk?

Disseram que ele era a alma do Atlético.

Era.

Mas esqueceram de avisar que o resto do corpo continuava vivo.

O curioso é que sua ausência acabou obrigando o time a reaprender a jogar coletivamente. Hoje a bola passeia por vários pés, a responsabilidade é dividida e ninguém fica esperando um super-herói vestir a capa. Enquanto isso, o velho ídolo ainda procura no Fluminense o futebol que parecia carregar no bolso em Belo Horizonte. A bola, às vezes, também sente saudade.

Já a mídia… essa continua uma figura folclórica. Quando o Atlético ganha, dizem que foi sorte. Quando domina, afirmam que o adversário estava cansado. Quando elimina, inventam que o outro perdeu para si mesmo. Se o Galo conquistar um título, aparecerá algum comentarista dizendo que o vento soprava a favor ou que Mercúrio estava alinhado com Saturno.

O problema é que comentarista moderno anda apaixonado por computador. Olha mapa de calor, algoritmo, GPS, quilometragem, intensidade, percentual disso e daquilo… só esquece de olhar o principal: a bola entrando na rede.

Futebol continua sendo decidido por coragem, talento, vontade e camisa. O resto serve para preencher planilha e justificar palpite errado.

O Atlético ainda está longe da perfeição. Vai tropeçar, vai fazer a torcida arrancar cabelos e provavelmente inventará algum sofrimento desnecessário, porque isso também faz parte do DNA alvinegro. Mas recuperou uma característica que sempre assustou os adversários: voltou a acreditar que pode ganhar de qualquer um.

E quando o Galo acredita…

Pode fechar a janela, recolher a roupa do varal e esconder a louça fina.

Porque vem tempestade.

E quem conhece a história sabe: quando o Galo canta alto, não desperta apenas o terreiro.

Acorda o Brasil inteiro.

Né não?

Afonso Canabrava

Afonso Canabrava nasceu na Rua São Paulo há 5 quadras do campo do Galo, aonde foi criado e aprendeu a nadar, jogar futebol e outras avenças. Foi contemporâneo dos comentários “lesco-lesco” do Kafunga, da presidência de Nelson Campos e de jogadores como Ubaldo, Dario, Reinaldo e tantos outros. Nessa época comemorou o pentacampeonato Mineiro e do Brasileirão. Torcedor contra o vento diante de uma camisa do Galo dependurada no varal, é ferrenho crítico de futebol e todas as suas nuances.

  • As opiniões contidas neste artigo não refletem necessariamente a opinião do portal Balcão News.

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