Galo: Acordou, mas ainda está espreguiçando! Canabrava em Campo
Galo: Acordou, mas ainda está espreguiçando!
Quem esperava que o Atlético voltasse da parada parecendo um foguete da NASA, capaz de decolar sem abastecer, já pode ir devolvendo o ingresso da ilusão. Nem tanto ao céu, nem tanto ao inferno. O Galo voltou do jeitinho mineiro: desconfiado, olhando para um lado, para o outro, tomando um cafezinho e perguntando: “Uai é pra jogar já?”
E, convenhamos, não foi um recomeço de fazer velório, muito menos de encomendar faixa de campeão. Empatar com o Bahia, despachar o Palmeiras e jogar na Arena MRV com um empate diante do Juventude não é exatamente uma tragédia grega. Tragédia era o futebol que o time apresentava antes da pausa, quando a bola parecia ter alergia ao gol adversário e alguns jogadores corriam menos do que notícia ruim em grupo de WhatsApp.
Contra o Palmeiras, aí sim, o Galo mostrou que ainda sabe cantar alto. Foi daqueles jogos em que o adversário saiu procurando o GPS para encontrar a bola. Parecia que o Atlético tinha reencontrado o futebol perdido em alguma mala extraviada na Copa do Mundo. A torcida, que já andava preparando o testamento, voltou a acreditar que Santo Victor ainda continua fazendo milagres sem entrar em campo.
Já diante do Juventude, o empate deixou aquela sensação típica de feijão sem alho: alimenta, mas falta alguma coisa. Segundo a maior parte da mídia esportiva, o Atlético teve mais volume, controlou boa parte da partida, criou oportunidades e mostrou organização superior à de meses atrás, mas voltou a pecar justamente onde o futebol costuma ser mais cruel: na última bola, no capricho da conclusão e na capacidade de transformar superioridade em placar. Em outras palavras, cozinhou o galo… e esqueceu de servir o jantar.
Mas calma, minha gente! Também não vale sair distribuindo atestado de incompetência como se fosse panfleto de supermercado.
Existe um detalhe que muita gente faz questão de esquecer porque reclamar dá menos trabalho do que pensar: a janela de transferências sequer abriu, e os novos reforços ainda nem colocaram a chuteira para desfilar no gramado. Cobrar uma orquestra sinfônica antes de os músicos chegarem ao teatro é coisa de quem acha que ovo vira omelete por decreto.
Aliás, a ansiedade de parte da torcida é um espetáculo à parte. Tem cidadão que, se o Atlético não ganhar de cinco, já pede impeachment do treinador, intervenção da ONU, convocação do Corpo de Bombeiros e, se bobear, uma audiência no Vaticano para investigar milagre insuficiente.
O time ainda está sendo montado. Ajustes existem. Falta encaixe. Falta ritmo. Falta entrosamento. Falta aquele sujeito que pega a bola e diz: “Sai da frente porque agora o problema é meu.” Futebol não se fabrica em micro-ondas. É panela de ferro, fogo baixo e paciência.
O importante é que alguma coisa mudou. O Atlético voltou a competir. Voltou a incomodar adversários grandes. Voltou a transmitir a impressão de que existe um plano e isso, convenhamos, já representa um avanço considerável em relação ao período anterior, quando algumas partidas pareciam reuniões de condomínio sem pauta: todo mundo falava, ninguém resolvia nada.
Eu digo que treinador bom não faz mágica; organiza a bagunça e deixa craque jogar. E o Galo, aos poucos, parece estar justamente arrumando a casa. Ainda tem poeira embaixo do tapete? Tem. Ainda falta trocar umas telhas? Claro. Mas já não parece aquele barracão onde cada um puxava a carroça para um lado.
Portanto, menos corneta e mais bom senso. O campeonato é uma maratona, não corrida de cem metros. Se o Galo continuar evoluindo, quando a janela abrir e os reforços finalmente vestirem preto e branco, talvez muita gente tenha de engolir a própria língua e olha que, para alguns comentaristas de ocasião, isso vai dar uma indigestão das boas.
O Galo ainda está apenas espreguiçando as asas. Mas, quando resolver voar de verdade, convém ao Barba esconder o milho, porque galo faminto não costuma pedir licença para ciscar.
Né não?
Afonso Canabrava
- Instagram: @afonsocanabrava
Afonso Canabrava nasceu na Rua São Paulo há 5 quadras do campo do Galo, aonde foi criado e aprendeu a nadar, jogar futebol e outras avenças. Foi contemporâneo dos comentários “lesco-lesco” do Kafunga, da presidência de Nelson Campos e de jogadores como Ubaldo, Dario, Reinaldo e tantos outros. Nessa época comemorou o pentacampeonato Mineiro e do Brasileirão. Torcedor contra o vento diante de uma camisa do Galo dependurada no varal, é ferrenho crítico de futebol e todas as suas nuances.
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